terça-feira, abril 11, 2006

Apontamento

Capote conta a história de como Truman Capote escreveu o livro “A Sangue Frio”. Novela documental, foi publicada em 1966 e considerada como tendo dado origem a um novo estilo de jornalismo literário. Mas conta, também, da relação entre dois homens, um escritor e um assassino e de como essa ligação se desenvolve e é determinante para a vida de ambos. Fascinada com a personagem do escritor, encontrei, no livro, a descrição de um assassino com traços de personalidade tão semelhantes ao de Capote, ambos narcísicos, ambos manipuladores, que não pude deixar de ficar a pensar numa das frases, do filme, em que Capote diz, qualquer coisa como: as nossas infâncias foram idênticas., vejo-nos como dois irmãos que cresceram juntos na mesma casa, só que eu (o escritor) saí pela porta principal e ele (o assassino) pela das traseiras. No filme, como no livro, é o que se refere à perturbação narcísica da personalidade destas duas personagens que me chama a atenção. O capote, como capa que encobre a possibilidade de para além de si existir um outro; o capote que encapota uma intensa desvalorização de si e surge como máscara para um eu centrado no desejo de si próprio, na imagem que vê reflectida de si, em todos os espelhos em que se mira, como narciso nas águas do lago.

“(…)O tempo raramente contava para ele (assassino), pois sabia inúmeras maneiras de o fazer passar, uma das quais era examinar-se ao espelho (…) o próprio rosto fascinava-o. Conforme o ângulo de que se via, tinha uma impressão diferente. Era uma cara sempre nova e aquelas experiências haviam-lhe ensinado a assumir um ar ameaçador, ou descarado, ou pensativo; uma inclinação de cabeça, uma torcedela de boca, e o cigano corrupto transformava-se num romântico gentil.” (A Sangue Frio – Truman Capote)

quinta-feira, abril 06, 2006

Maxim's com Cid

O Maxim’s é um club nocturno lisboeta que faz lembrar outros tempos, na decoração carmim das paredes e nos pequenos lustres do tecto. Tem um glamour especial, intimista e onde se respiram histórias de encontros e desencontros de amores ganhos e perdidos. Da sua história passada, não sei. Conheço a mais recente e que já vai longa, um club de streptease e alterne. No fim-de-semana passado, o Maxim’s teve como figura principal e única de cartaz, José Cid. De repente a Praça da Alegria encheu-se de gente que fazia fila para ver e ouvir o cantor. Estive lá no Domingo. Dos frequentadores habituais, nem um. Reconheci muitas pessoas, o Presidente da Câmara de Lisboa, o Miguel Ângelo dos Delfins, o Olavo Bilac, o Paulo Gonzo, a Luísa Castelo Branco e muitos outros de que não me recordo o nome. O Maxim’s continuava carmim, os lustres no tecto e os empregados vestidos a rigor. A diferença era que a solidão estava arredada daquele espaço por uma noite. Não se trocavam olhares com olhos tristes e vazios de quem está só e procura. As expressões eram alegres, todos estavam acompanhados por alguém e trocavam-se sorrisos e canções. A mudança para o que estava a acontecer era José Cid. Afinal, toda a gente conhece as músicas e as letras do cantor e gritava-se:”a canção das favas, a das favas..” e ele, a justificar: “essa não canto porque no meu percurso escrevi letras muito más e a dessa canção, acho que é a pior de todas…”. Cantou as outras todas e nós com ele porque não nos faltava um verso. Que fenómeno é este que faz com que Cid passe a herói na capital? Pode ser da organização que promoveu o evento; mas e as letras que todos tão bem sabiam, mesmo aqueles que pela idade não podiam recordar o que não é da sua geração? E o Maxim’s que experimentou novas gentes e novas musicas, mesmo que só por um fim-de-semana e mesmo que na segunda feira tenha voltado à vida de sempre, que mudanças sofreu dentro de si? É que quando se vivem novas formas de relação, percebe-se que existem outras hipóteses de estar/ser, mesmo que aparentemente tudo se mantenha igual como sempre.

terça-feira, abril 04, 2006

Comunicar é um processo de troca de informação

A comunicação parece coisa simples. Basta dois para que aconteça: o emissor e o receptor. Um emite, o outro recebe, depois trocam e re-trocam de papéis e a coisa está feita. Mas, não! Não basta dizer, nem ouvir. É necessário, saber ver e ouvir: a si e ao outro. Vem isto, a propósito, de conversar. Com Adão e Eva, não parece ter resultado porque, apesar de juntos e poderem olhar-se nos sinais do não verbal, não conseguiram escutar-se nem na língua comum das palavras verbais. O resto é sabido: uma maçã e uma serpente introduziram o ruído dissonante que pôs termo ao paraíso. Comunicar liga-se, então, a relação; ou o inverso, já que uma não existe sem a outra e bastam dois para o fazer. O silêncio com o outro pode dizer o desejo de não comunicar, o grito pode significar querer ser escutado e o sussurro, a zanga contida. Depende. Pode não ser nada assim. As aparências iludem porque tudo varia em função de quem diz e de quem escuta. Quer isto dizer, de falarem uma mesma linguagem, seja ela feita através do recurso a sinais, gestos, sons ou palavras. Mas não é suficiente, porque, a forma como um vai interpretar a linguagem de um outro é que determina a resposta e a troca que se poderá estabelecer entre os dois.
Vem isto a propósito, das cenas comuns a todos aqueles que partilham a vida com outros, que acabamos por ser todos, menos os eremitas até saber-se que o são. Tudo começa de manhã, se uns não acordarem em simultâneo com os outros. De repente, do silêncio surge o impacto brutal daqueles sons que não se escutam quando tudo é barulho ao nosso redor. O interruptor do quarto ao lado, a água do chuveiro ou o abrir de uma porta, podem assumir proporções de tal ordem que o bom dia costumeiro do acordar se pode transformar num péssimo inicio de dia. Acrescentem a estes sons, que para quem dorme e por se tornarem habituais de rotineiros no dormir, geralmente deixam de se escutar, os ruídos de quem, por já estar acordado, não escuta aquele que se encontra ali, mesmo ao lado, ainda adormecido, do outro lado da cama. Ele acorda apressado porque o despertador já tinha tocado lá atrás no tempo. Ela dorme porque o despertador só vai tocar daí a mais algum tempo. Ele tem que aproveitar todos os segundos para não se atrasar mais. Ela pode aproveitar todos os segundos para descansar um pouco mais. Ele não a vê, está com pressa. Ela também não o vê, está adormecida. E, então, na penumbra que já é luz, porque a persiana aberta deixa entrar o dia feito, o quarto transforma-se em campo de batalha e ela acorda em susto, atordoada e antes da hora. Ele está zangado com a pressa que ela não tem. Ela está zangada por ele não escutar o tempo que ela tem. Ele comunica a sua zanga no barulho que faz. Ela tem os olhos abertos para ele saber que já não dorme. Zangam-se e interpretam na linguagem do outro, as suas crenças e certezas sobre o significado que atribuem ao que escutam. Amanhã, tudo se repetirá ou será diferente dependendo do estado mental de cada um, dos estímulos exteriores, nesse acordar; mas, sobretudo, na oportunidade que se derem para encontrarem uma forma de se comunicarem, entre ambos.

domingo, abril 02, 2006

Tempos do Verbo Gostar

Esta coisa essencial a todos nós que se chama relação é um pau de dois bicos.
Parece fácil dar e receber afecto de um outro gostoso/gostavel/gostante, reconhece-lo enquanto indivíduo com características próprias e aceitá-lo na diferença. Mas, saber o eu, o tu e o nós não é viver numa calda de açúcar transparente e doce. É, antes, viver no ponto.
Só que nisto do gostar há sempre grânulos de açúcar e então, provada a calda, ela não sabe ao imaginado mas antes nos faz pensar naquilo que correu mal. Foi do açúcar, ou serei eu incapaz na culinária? Posto o pensamento neste pensar, fora de mim/dentro de mim, é na falha que me concentro e eis o problema da calda do açúcar resolvido com um ponto final.
Se substituirmos calda de açúcar por relação com o outro, quantas vezes é nos pólos opostos eu/outro que o pensamento se cristaliza, sem poder avançar.
Dizia-me há tempos uma jovem mulher sobre o marido: “É fácil exigir tudo de mim que sinto como que uma obrigação de ser perfeita porque isto lhe dá a ilusão que não tem mácula. Só não o aborreço se fizer exactamente aquilo que espera que eu faça porque o meu desejo não lhe ocorre, ou não o acha importante”.
Esta exigência sentida de ter que ser perfeita fica aquém da sua real capacidade de o poder ser e, por isso, o que vive na relação é a sua incapacidade de satisfazer o outro e de por ele poder ser gostada, sempre que a sua escolha não coincide com o desejo dele. É que, aqui, o que se joga é a condição de uma perfeição imposta, porque em função desse outro e não da sua necessidade de ser. Ser é perder o outro. Mas para esse outro, também é perder a omnipotência que julga possuir, sempre que a diferença é sinónimo de desilusão por não ser único. Não o sendo, também ele sente não poder ser gostado.
É o outro bico do pau. É que a diferença é temida, geradora de insegurança, tantas vezes sentida como abandono. Foi o aprendido durante a infância, primeiro em casa, depois fora dela E se isto fica por aqui, quando adulto, vai guardar dentro de si o sentir-se tratado como objecto de um outro que não lhe reconhece suficiente valor próprio. Mas, sem diferença do outro não pode haver liberdade de escolha, não se pode criar uma autonomia que permita construir um projecto pessoal de vida com todos os riscos que isso venha a acarretar. Não aprender a diferença, é ser um empecilho para a tríade do gostar-se, sentir-se gostado, gostar.

sexta-feira, março 31, 2006

Apresentação

A História das pessoas, nas suas diferentes épocas, sempre me animou de uma curiosidade intensa pela necessidade de dar um sentido compreensivo ao presente. Todos nós temos uma história, a nossa história e que se constroi à medida que apreendemos e aprendemos experiências e vivencias que se vão inscrevendo em nós, na relação com os outros e, nos tornam quem somos. Conversas de Psis, surge como alternativa a um convite que me foi dirigido, por um Jornal Semanário: "O Independente", para que escrevesse uma crónica para o suplemento Saúde. Acontece que o suplemento acabou antes de o meu texto ser publicado. Mas, aconteceu, também, dentro de mim um entusiasmo com este jogo que é o de poder põr o pensamento em palavras. A História actual deu-nos novas tecnologias que nos permitem comunicar e trocar ideias de forma inovadora: a internet. Já há muito tempo que vinha ouvindo falar dos "Blogs", sem entender muito bem o que eram, como funcionavam. Confesso a existência de alguma resistencia. Talvez que em mim exista uma réstia de velho do restelo. No entanto, o desejo de partilhar o texto que escrevi e não o perder numa gaveta sem memória, foi mais forte. Ninguém escreve só para si.Até os diários são publicados, mesmo que postumamente. Então, aqui estou a introduzir o meu Blog. Semanalmente, escreverei uma pequena crónica. Amanhã colocarei no Blog o texto já escrito e assim acontecerá todas as terças-feiras. Se calhar, não é esta a forma mais adequada de iniciar um Blog, foi a que eu encontrei para me apresentar. Para si que me leu, obrigada.